Morte de mineiro no deserto dos EUA comove Ferruginha (Conselheiro Pena)


Maria Araújo Guimarães, mãe de Diego, espera notícias sobre a localização do corpo do filho (Foto: Leonardo Morais)



CONSELHEIRO PENA – A polícia de imigração dos Estados Unidos está procurando o corpo do mineiro Diego Armando Guimarães, de 24 anos, que morreu de desidratação no deserto entre o México e aquele país, no último dia 8. As buscas foram iniciadas nesta quarta-feira (15) com auxílio de Cláudio Afonso Pereira, de 22 anos. Ele enterrou o corpo do amigo dois dias antes de ser preso. Por causa das tragédias que se repetem com emigrantes que partem da Região Leste de Minas, uma comissão do Ministério das Relações Exteriores virá ao estado na próxima semana. Na terça-feira, a mãe de Diego, Maria Araújo Guimarães, 54 anos, fez um apelo emocionado para que as autoridades encontrassem o corpo do filho e o enviasse para casa.

A morte de Diego e a prisão do amigo dele, o comerciante Cláudio Afonso Pereira, é o principal assunto das rodas de conversa em Ferruginha, distrito de Conselheiro Pena, no Vale do Rio Doce. Isto porque, além da consternação, o drama das duas famílias ronda 90% das demais, todas com pelo menos um morador no exterior.

Ferruginha tem cerca de 2,4 mil habitantes. As ruas são calçadas, a maioria das construções é moderna e o comércio ativo e diversificado. O desenvolvimento estaria atrelado à emigração de moradores e os investimentos que fazem no lugar. “Aqui, 90% das famílias têm parentes no exterior. Falta emprego para manter os jovens no distrito”, informou a comerciante Laudicéia Oliveira, de 45 anos. Ela emigrou em 2000 e chegou há dois anos, depois de construir uma lanchonete.


Laudicéia é mãe de Cláudio, que está preso em Houston desde o último dia 10. O rapaz deixou a cidade mineira pela primeira vez em 2004, com a ajuda da mãe, que custeou a viagem. Ficou três anos nos Estados Unidos e voltou para Ferruginha. Agora tentava emigrar novamente.


“Aqui é um ótimo lugar para viver e criar os filhos, mas para ganhar dinheiro não dá. A gente tem que sair, fazer um pé de meia e só depois voltar pra cá”, afirma Eleuza Azevedo, de 41 anos, que chegou há dois meses de Portugal, onde trabalhou por quatro anos. Em Ferruginha, ela abriu um restaurante, que toca com a ajuda de uma irmã e do filho de 16 anos.


Eleuza Azevedo tem parentes no país lusitano e Estados Unidos. Entre eles, uma irmã. “Fui para Portugal por causa do medo do deserto do México, mas minha opção inicial era os Estados Unidos. Não suportaria passar fome e sede”, conta a antiga cozinheira que agora é comerciante em Ferruginha. “De qualquer forma, emigrar nunca mais. Somos muito humilhados lá fora”, disse.


O fazendeiro Roberto Lima, 35 anos, é outro morador com experiência migratória. A morte de Diego e a prisão de Cláudio não desanimaram o emigrante, que se prepara para a terceira viagem rumo aos Estados Unidos. Nas duas primeiras, entrou naquele país clandestinamente pelo deserto do México, rota que pretende fazer novamente dentro de três meses. “Aqui é bom demais, sossegado, mas não tem emprego. Então não adianta ter medo”, justificou.


Lima emigrou em 1994, mas depois de cinco anos no exterior, voltou para o distrito onde comprou uma fazenda e cabeças de gado. Um ano e meio depois, retornou à “Terra do Tio Sam”, onde trabalhou como cozinheiro até o final de 2010. O dinheiro que conseguir juntar agora vai investir em imóveis. “Tenho um filho e ex-mulher lá (EUA). A sorte na travessia depende do caminho e da pessoa (coiote) que está nos levando. Já tenho experiência”, garantiu.


Diego e Cláudio eram amigos e saíram juntos de Ferruginha dia 24 de maio. No dia 8 de junho, depois de vagarem 17 dias pelo deserto, Diego morreu de desidratação. Cláudio tentou, sem sucesso, reanimar o amigo usando a pouca água que tinha. Ele enterrou o corpo dp amigo em cova rasa, feita com as próprias mãos. Dois dias depois, já em Houston, estado do Texas, ele foi preso pela polícia de emigração. Na cadeia, avisou os familiares sobre a tragédia.

O Itamaraty informou, por meio de sua assessoria em Brasília, que o emigrante preso contou a funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Houston, que o amigo morreu quando se encontravam em solo norte-americano. E que teria enterrado parcialmente o corpo, deixando ao seu lado passaporte e outros documentos para facilitar a identificação.

Fonte: Hoje em Dia

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